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Eu escrevi um texto longo e triste, mas amassei a folha e joguei fora. Porque não serve mais, isso não serve mais. Não há lirismo. Foi o que pensei enquanto acordava. Peguei meu vestido ao pé da cama, minha bolsa no chão e minhas sandálias no corredor. Olhei no espelho e vi meu cabelo desgrenhado e o rímel borrado embaixo dos meus olhos. Lavei o rosto. Voltei para o quarto, arrumei a cama, tirei aquele lençol manchado de mim e de você. Peguei a garrafa de vinho e as taças vazias e coloquei na pia da cozinha. Olhei ao redor daquela casa que não era a minha. Vazia. Tem uma chave para você na porta, ele disse me beijando e saindo apressado para o trabalho. Eu fiquei lá dormindo mais um pouco. Quem sabe se eu ficasse talvez pudesse me sentir um pouco mais parte daquela casa. Vazia. Eu vi fotos do passado, confesso. E um caderninho com anotações que me apunhalaram. Que pretensão a minha, pensei. Eu não sou sujeito do seu amor ou do seu desespero. Quis sair dali, fui para a rua. Vi uma mancha de sangue no meu vestido. Era sangue. Ou vinho. Ao meu redor tudo era meio cinematográfico, irreal. A noite de ontem. Sua casa. Você. Seus olhos. E então chorei. Chorei porque a minha loucura não tem limites na minha autoflagelação. Porque não importa para onde eu olhe não há amor, conforto ou descanso. Eu tenho que pedir? Não, não há descanso na loucura. Nem lirismo no vício mórbido repetido. Na neurose continuada. Eu que só queria um pouco de ternura, te encontro apenas pelo fato de que você nada tem a me oferecer. E assim o mundo segue sem que nada me seja oferecido. Fica o vazio. Talvez esse seja um texto triste. Mas penso que triste não é bem a palavra, esse é um texto desesperançado, encurralado por vontade própria. Talvez essa seja uma situação triste. Eu, olhando para a parede, só penso que não há lirismo. Não há. E não espero que alguém me entenda. Mentira.
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2 comentários:
Penso que o lirismo não sobrevive quando a solidão é muita.
Penso não. Sinto.
das coisas que ficam para trás, todos os dias...
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