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Olhava para o corredor a sua frente enquanto fumava demoradamente um cigarro. Sem pressa. Uma tragada após a outra. Mexeu-se e tocou sem querer o corpo estirado ao seu lado. Ouviu uns resmungos e encolheu-se de súbito. Não, não queria conversar. Pensava nos livros que tinha que ler e nas coisas que ainda tinha a fazer. Será que daria tempo? Levantou-se e foi até a cozinha. Abriu a geladeira e pegou uma cerveja. Caminhou até a sala, sentou-se. Bebeu uns goles e acendeu outro cigarro. Começou a trabalhar distraidamente na pilha de papéis acumulados sobre a mesa. Ficou feliz, pelo menos o trabalho lhe dava algum prazer. Depois de um tempo levantou os olhos e viu que a outra pessoa estava parada no batente da porta.
- O que você tá fazendo?
- Trabalhando.
- Numa hora dessas?
- E tem hora certa?
- Sei lá... dias de semana de nove às cinco, por exemplo, como as pessoas normais.
- Ah, não me fale nesse negócio de expediente. Nesse blábláblá de operário, de pessoas normais. Eu trabalho quando quero. Madrugada, café.... ou umas cachaças, dependendo do tempo. Você sabe.
- Achei que a gente fosse...
- O que?
- Não sei, eu te liguei, vim aqui... Nunca vi você fumando antes.
- Só de vez em quando. Alguém deixou esse maço aqui em casa. Fiquei a fim, só isso.
- É que eu vim pra cá, cheguei e você tava dormindo, resolvi não te acordar e acabei dormindo também.
- Eu sei. Não agüentei esperar. Tive que acordar cedo pra fazer aquele exame.
- O que você tá fazendo?
- Trabalhando.
- Numa hora dessas?
- E tem hora certa?
- Sei lá... dias de semana de nove às cinco, por exemplo, como as pessoas normais.
- Ah, não me fale nesse negócio de expediente. Nesse blábláblá de operário, de pessoas normais. Eu trabalho quando quero. Madrugada, café.... ou umas cachaças, dependendo do tempo. Você sabe.
- Achei que a gente fosse...
- O que?
- Não sei, eu te liguei, vim aqui... Nunca vi você fumando antes.
- Só de vez em quando. Alguém deixou esse maço aqui em casa. Fiquei a fim, só isso.
- É que eu vim pra cá, cheguei e você tava dormindo, resolvi não te acordar e acabei dormindo também.
- Eu sei. Não agüentei esperar. Tive que acordar cedo pra fazer aquele exame.
- Mas agora você acordou, eu também. Não vai ficar trabalhando, vai. Olha pra mim, vamos conversar.
- Tem cerveja na geladeira.
- Não é isso que eu quero saber. Olha pra mim. O que eu deveria fazer enquanto você trabalha?
- Vai dormir. Tá tarde.
- Antes eu achava essa sua crueldade espontânea um charme. Ainda acho. Mas dói mesmo assim.
- Se querer trabalhar é ser cruel, então devo ser mesmo.
- Não importa se estamos sentados à mesma mesa ou na mesma sala. Você nunca está realmente aqui. Eu teria que andar uns dois quilômetros pra alcançar você. O problema é que não sei qual caminho seguir porque você nunca dá uma pista.
- Olha, não faz isso. Não vamos começar a discutir sobre essas coisas. Não agora. Eu preciso trabalhar. Sério mesmo.
- Você nunca quer conversar sobre a gente, sobre o que acontece entre nós. Sempre, sempre foge. E pela primeira vez eu acho isso um defeito, não é irônico? Eu vou dormir em casa.
- Tudo bem. Fecha a porta quando sair. É só que eu preciso trabalhar. Você entende, né?
- Não sei. Ser compreensivo pode ser algo sobre humano. Eu não sei se sou tão digno assim. Pra ser sincero, nem sei se quero.
As palavras ecoaram pela sala, mas ela pareceu não ouvir. Estava novamente concentrada nos papéis a sua frente. O cigarro tinha acabado e ela acendeu outro. O maço estava no fim. Talvez comprasse um novo amanhã, pensou. Ouviu os barulhos distantes dele se vestindo e indo embora. Sem se despedir. Ela não se importou muito, ultimamente vinha se debatendo com uma questão que não saía da sua cabeça. Não entendia por que o ser humano não consegue sentir desejo pelo banal. Tudo tão certo e... Tragou fundo. Não, por mais que pensasse, isso ela não conseguia responder. Voltou aos papéis.
- Tem cerveja na geladeira.
- Não é isso que eu quero saber. Olha pra mim. O que eu deveria fazer enquanto você trabalha?
- Vai dormir. Tá tarde.
- Antes eu achava essa sua crueldade espontânea um charme. Ainda acho. Mas dói mesmo assim.
- Se querer trabalhar é ser cruel, então devo ser mesmo.
- Não importa se estamos sentados à mesma mesa ou na mesma sala. Você nunca está realmente aqui. Eu teria que andar uns dois quilômetros pra alcançar você. O problema é que não sei qual caminho seguir porque você nunca dá uma pista.
- Olha, não faz isso. Não vamos começar a discutir sobre essas coisas. Não agora. Eu preciso trabalhar. Sério mesmo.
- Você nunca quer conversar sobre a gente, sobre o que acontece entre nós. Sempre, sempre foge. E pela primeira vez eu acho isso um defeito, não é irônico? Eu vou dormir em casa.
- Tudo bem. Fecha a porta quando sair. É só que eu preciso trabalhar. Você entende, né?
- Não sei. Ser compreensivo pode ser algo sobre humano. Eu não sei se sou tão digno assim. Pra ser sincero, nem sei se quero.
As palavras ecoaram pela sala, mas ela pareceu não ouvir. Estava novamente concentrada nos papéis a sua frente. O cigarro tinha acabado e ela acendeu outro. O maço estava no fim. Talvez comprasse um novo amanhã, pensou. Ouviu os barulhos distantes dele se vestindo e indo embora. Sem se despedir. Ela não se importou muito, ultimamente vinha se debatendo com uma questão que não saía da sua cabeça. Não entendia por que o ser humano não consegue sentir desejo pelo banal. Tudo tão certo e... Tragou fundo. Não, por mais que pensasse, isso ela não conseguia responder. Voltou aos papéis.
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5 comentários:
Mujer, não há um post seu com o qual eu não me identifique. É impressionante. Já falei sobre isso? Não me recordo.
E sabe o que eu acho? Que a crueldade espontânea é só um disfarce. No final das contas, dói bem mais nela do que nele. Pena que ele não saiba disso.
Crueldade espontânea, o que é importante pra mim não ser pro outro, a distãncia entre nos, a vontade de trabalhar até de manha e dormir até a tarde..
já estive por aqui.
Beijos
Tathi, eu também me sinto assim em relação aos seus posts :)!
Camilla, eu escrevi mais o post pensando que as pessoas iriam pensar que a mulher era o homem. Afinal, ele é que quer conversar, quer estar mais perto. E ela foge. Enfim, crueldade espontânea dói mais, acho eu.
beijos
Gostei do texto, questão complicada esta, como tornar o cotidiano em algo especial, sem amor.
Eu li o texto e pensei na burocracia das coisas do mundo x o desejo da banalidade. Lutar contra o trabalho é uma luta difícil. Muitas desculpas, e no fim a pessoa acaba tentando domar a outra com os instintos básicos, assim mesmo como você escreveu. O triste é que sem o espaço-tempo, não tem amor que resista, e é justamente o que o trabalho furta, e furta de uma maneira sensual e prazerosa.
Ah eu adoro achar uma suavidade nas tuas linhas firmes.
Obrigado por sua visita .
Alex.
Ah, Alexandre, não pode ir me desmascarando assim.... eu fico tentanto disfarçar a suavidade e, pelo visto, não consigo... eita!
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