terça-feira, 12 de agosto de 2008

Ainda sobre livros

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Era adolescente quando ouvi a minha professora de literatura falar de um autor chamado Rubem Fonseca. Ela era quase tão nova quanto nós, os alunos, e dizia empolgada que o Rubem Fonseca escrevia uns “contos muito fortes” deixando antever que havia violência, além de alguma sacanagem mais pesada. Pra mim bastou e lá fui eu conhecer esse autor de “contos fortes”. Viciei logo de cara. Nunca tinha lido nada parecido. Crimes, pornografia, solidão e violência na sua forma mais crua possível. Tudo isso junto e não consegui achar repugnante o que li. Pelo contrário, por ser tão cru, Rubem Fonseca atinge um grau de amoralidade que não nos leva a condenar os criminosos de seus escritos, mas nos torna comparsas da loucura de seus personagens que é perfeitamente afeita aos tempos atuais – afinal, não possuímos todos um lugarzinho escuro, bruto e inexplorado? Pois então, é nesse lugar que Rubem Fonseca toca. Talvez por já ter sido policial no Rio de Janeiro há tempo atrás, ele tenha tido a noção de que o crime e a perversão não são algo excepcional ao ser humano. Incomoda e é bom que o faça porque emociona e faz pensar.

Falei do Rubem porque me tornei fã deste estilo cru, masculino e amoral. E eu ainda não havia encontrado nenhum autor que me despertasse no mesmo caminho até que um amigo me presenteou com “Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios” de Marçal Aquino. O livro conta a história de Cauby um fotógrafo de 40 anos que vai parar em uma cidade de garimpo do Pará e acaba vivendo um romance clandestino com uma mulher misteriosa, sedutora e problemática chamada Lavínia. Uma trama exótica da qual duvidei a princípio, confesso. Mas logo nas primeiras páginas me apaixonei. Li o livro em quase 24 horas e levei dois dias pra ler as últimas páginas. Não queria que acabasse. Uma narrativa seca e indireta, só que se trata de uma história de amor. Uma contradição que não se contradiz. Agora estou lendo meu segundo livro dele, uma coletânea de contos entitulado “Famílias terrivelmente felizes”. Ando igualmente apaixonada. Segue um trecho:

“Poucas vezes me senti tão confortável no mundo. E, no entanto, sofria, por antecipação, o grande vazio que seria o resto da minha existência sem ela.

O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela, mas não disse.

Talvez por saber que era o fim, e a gente nunca se comporta mesmo muito bem nos finais; ou talvez por impotência, desamparo, angústia; e também por covardia, não há vergonha alguma em admitir; talvez por tudo isso, e à falta de um nome adequado para a sensação de impotência que me esmagava, o fato é que desabei. Agarrado ao corpo ainda trepidante de Lavínia, logo depois de fazê-la gritar ao ponto de me preocupar com o sono do gerente lá fora, caí num choro convulsivo. Chorei de soluçar e de franzir o rosto e fazer caretas, sem nenhum pudor (existe algo mais despudorado do que um homem nu chorando?, e mais patético). Lavínia beijou meus cabelos, afagou-os, tocou as feridas em meu braço. Disse que o veneno ainda devia estar fazendo efeito no meu sangue. Talvez tivesse razão.”

(Eu ouviria as piores notícias de seus lindos lábios – Marçal Aquino, p. 155).


p.s.: Marçal Aquino é também roteirista de cinema. Em breve, um de seus livros, "Cabeça a prêmio", deve ganhar as telas.

7 comentários:

Zander Catta Preta disse...

Ah! de nada pela indicação do livro, viu?

desnaturada...

Maria B. disse...

Poxa, Zander, já te agradeci taaaaaanyo pelo livro! Aliás, o post é o maior agradecimento, olha só o que você fez?! :)
beijo

Ostra disse...

lançado o desafio: "escreva um conto cru, masculino e amoral"
ou "exótico feminino e sensual", os dois terão o mesmo cerne.
Vc primeiro ;))

tatiana disse...

Boas indicações. Até porque essas coisas "subversivas" sempre me interessaram muito. Lerei Aquino.

Camilla Tebet disse...

Uau,que legal, eu li esse livro, é demais mesmo. Tbém acho ele um pouco Rubem Fonseca. Nova geração de escritores que trabalham a realidade e a ficção de modo harmônico. Tive o privilégio de mediar uma palestra do Marçal Aquino e te conto que o cara é fantástico. Uma voz de radialista, uma alma de criança e uma inteligência de bom escritor.
E vc... . És crítica literária? Seu textó é muito bom..

Ostra disse...

Vamos atualizar o aquário!
Limpar, Colocar peixes novos, adornos...

Daniel Souza disse...

" O Adorador " do Zeca Fonseca, filho dele.

Lâmina na retina. Cortante. Sujo, sem educação alguma, fedorento, sincero, verdadeiro e mais " homem " que muitos (?) por aí. Meio Gutierrez em " Animal Tropical ".

Enfim, creio que curtiria.