sábado, 21 de junho de 2008

Na natureza selvagem


Acabei de ver o filme do Sean Penn, "Na Natureza Selvagem", que eu perdi nos cinemas. O filme é longo, beeeem longo, tanto que me deixou impaciente no final. E me deixou também com várias questões na cabeça. A base do filme é a fantasia clássica que todo mundo já desejou fazer um dia: fugir de tudo e de todos sem deixar pistas e ir explorar o mundo. E isso aconteceu de fato com Christopher McCandless. Aluno exemplar e destinado ao sucesso, Christopher aparentemente tinha poucos motivos para deixar-se levar por questões existenciais. Acontece que toda sua vida familiar, sua criação e os valores sociais que lhe foram passados não faziam sentido para ele. O que ele deveria querer da vida casa, carro, roupas da moda e dinheiro? Que relações eram importantes para ele, a da família disfuncional e sem amor? Com o pseudônimo de Alex Supertramp, Christopher sai pela estrada sem olhar pra trás dando início a uma jornada em busca de si mesmo.

Uma citação de Lord Byron logo de cara traz o tom do romantismo para a aventura. Em vez de sexo e álcool, o escapismo está na fuga literal, na recusa em participar da sociedade. "A civilização envenena'", afirma Christopher. Há algo de infantil nisto de, em vez de encarar a vida de frente com todos os seus problemas, abandonar qualquer plano racional e partir para um ideal de vida "pura". Christopher decide que a sociedade com seus valores e instituições está perdida e que nada pode ser feito, a não ser partir. A felicidade seria algo a ser alcançado solitariamente no cenário primitivo e cru da natureza selvagem. Não há como deixar de se apaixonar pelo personagem que busca de forma tão intensa concretizar suas verdades animado pelo companheirismo literário de autores como Byron, Thoreau e Jack London.

Esta postura extrema e radical, porém, impede Christopher de enxergar o essencial que se desenrola diante dele. Os relacionamentos que conquista ao longo de seu caminho o amparam e oferecem o amor e a troca dos quais ele tanto foge e maldiz. E, somente no final, ao atingir sua meta de viver sozinho em meio a paisagem do Alaska, ele se dá conta que a felicidade só vale a pena quando compartilhada. Fica a lição que é mesmo impossível ser feliz sozinho e que ninguém é uma ilha. Mas, enfim, aí pode ser tarde demais para ele.

Não é preciso sair procurando uma floresta para ser como Christopher. Eu conheço várias pessoas assim, inclusive eu em muitos momentos. Pessoas que percebem que a dinâmica da sociedade é lubrificada por uma hipocrisia infinita. É difícil encarar a perspectiva de que teremos que viver a vida nesse meio medíocre e ganancioso onde só importa vencer. E onde ser bonito, ter um emprego estável, casa própria, carro do ano e foto de família sorridente é o parâmetro que a maioria tem de felicidade. Eu sei que nunca vou me enquadrar de fato a todos os rituais e estereótipos que me são exigidos. Diante disso, o escapismo e o isolamento parecem sempre atraentes. Mas, ao contrário de Christopher, já descobri que existem outras pessoas como eu e que amar pode ser um negócio legal. Sei também que a vida perfeita é uma ilusão. O que existe de mais próximo é a vida com significado. Daí que a minha única ilusão é justamente a crença de que eu posso fazer alguma coisa, mesmo que pequena, para melhorar isso tudo.

p.s.: uma dica é ler o livro homônimo de Jon Krakauer (também autor do ótimo “No ar rarefeito”) que serviu de base para o filme. A trilha sonora fenomenal é feita, pelo não menos fenomenal, Eddie Vedder. Vale baixar.


4 comentários:

Bruno disse...

Filme foda, vi mês passado. Realmente o cara foi radical demais, impulsivo demais, inconseqüente demais. Um pouco menos de tudo isso e ele teria ido "lá e de volta outra vez". Eu tenho meus momentos de fugere urben, mas sempre que dou vazão à eles é em medida menor do que gostaria...
Bjo!

Lucy, disse...

"to call each thing by his right name"

já escrevi também sobre ele :)

=~~~~

Maria B. disse...

Eu não faria o que ele fez. Mas, que dá vontade dá!

Ostra disse...

sabe que tô lendo tudo?
siiiiim