quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sem sinal

.
.
Leio seus poemas esperando um dia ser parte deles.
.
.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Tão barato que eu nem acredito

.
.
Ando pensando e fazendo tudo feito turbilhão-junto-misturado. Pouco sobra para as palavras ou talvez seja verdade o que dizem que escrever é próprio da melancolia. E sem melancolia, o que resta? Tenho tentado buscar novas palavras, novos caminhos que gritam dentro da minha cabeça ainda aprisionados no tempo-espaço do sonho entre o ser e o não ser. Não tenho tido tempo de ser lírica. Não tenho tido paciência com palavras que gritam drama. Na minha angústia, ando procurando caminho. Mas só porque não há mais alternativa. Tudo se tornou tão parte do mais do mesmo que agora só pulando fora - ou pulando dentro de mim, diga você. Acendo cigarros como se acendesse uma ideia, mas agora eu só preciso de um pouco de salvação. Ou alguma redenção no final do dia, algo que me lembre paz ou que me reafirme que nem tudo está perdido. Os sonhos, às vezes eles aparentam serem tão infantis. Mas, por que é mesmo que a gente sempre desqualifica algo dizendo "ah, isso é muito infantil"? Inocência não cai bem nas feridas, talvez - talvez?
.
.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ch...ch...ch...ch...changes

.
.
O turbilhão. Lá vem ele de novo. Sacode o tapete, leva embora qualquer resquício de certezas. Já me acostumei com redefinições tantas que não me sobrou mais nenhum parâmetro de concreto. Me sindo feita de borracha, água, ar ou qualquer coisa passível de ser moldada às formas que o tempo quer dar. Apesar de tudo, ainda me irrito. Há pesar. Ainda procuro colo. Ainda queria aquele descanso na loucura tão falado por Guimarães Rosa. Sonhei e desfiz, sonhei e desfiz, sonhei e me fiz em algo que ainda nem consigo imaginar.  
.
.

.
.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Not dark yet*

.
.
As sombras do final do dia vão caindo e eu fiquei aqui o dia inteiro
Está muito quente pra dormir, o tempo está se esgotando
Sinto como se minha alma fosse feita de aço
Ainda guardo as cicatrizes que o sol não curou
Não há mesmo espaço para estar em lugar algum
Ainda não escureceu, mas quase
Bem, meu senso de humanidade tem se esvaído pelo ralo
Por trás de cada beleza tem havido algum tipo de dor
Ela me escreveu uma carta e a fez tão gentilmente
Colocou nas palavras aquilo que sentia
Eu simplesmente não sei por que deveria me importar
Ainda não escureceu, mas quase
Bem, eu estive em Londres e estive na festiva Paris
Eu segui o rio e encontrei o mar
Eu estive nas profundezas de um mundo cheio de mentiras
Eu não procuro nada nos olhos de ninguém
Às vezes meu fardo parece maior do que consigo suportar
Ainda não escureceu, mas quase
Eu nasci aqui e morrerei aqui, contra a minha vontade
Sei que parece que estou partindo, mas continuo aqui
Cada nervo do meu corpo está tão ocioso e entorpecido
Eu não consigo me lembrar do que estava fugindo quando cheguei
E nem mesmo escuto sons distantes de alguma oração
Ainda não escureceu, mas quase
.
.
*Tradução livre da música de Bob Dylan

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Toda lua é atroz e todo sol, amargo*

.
.
.
.
O que eu ganho. O que eu perco. O que eu disse. O que eu calei. Aquilo que está. Aquilo que se foi. O escuro, duro. O transe. O sono. A morte. O acordar. O que está nas cartas. O que diz o destino. O que é certo. O que é cego, mudo, surdo. Indissoluto. O que se esquece. O que entorpece. O que doi. O que alivia, cria, inebria. Aquilo que fere. Aquilo que treme, geme e a gente sente. O que é absurdo, curto, resoluto. Aquilo de que me abstive. Céu, ar e as asas que eu nunca tive. A ideia e o concreto. Ser e estar conjugados certo. Pensar, amar. Perder e resolver. Ou não resolver. Mas, ficar. Sem sentido, mas vivo, lido e entendido. Fudido, incompreendido. Visceral, carnal. As unhas roídas, carne viva, afinal. Sem par, sem lar. A vida. A ida. 
.
.
* (Rimbaud - "O barco embriagado").

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Delirium tremens

.
.

O nó, o bolo, o regurgito, aquilo que vem e que vai na garganta, ruminando. Não há de ser cuspido. Não há de ser vomitado, nem berrado. A voz cala dentro da garganta e lá permanece no meio do caminho. Grito, gritado pra dentro e não ouvido para quem foi pensado. Nem mesmo água é capaz de deslizar goela abaixo. Entalado. O corpo rejeita o sentimento transbordante que não pode mais voltar para a fonte. O sentimento quer ganhar mundo, quer tocar, quer doer, quer gozar. Mas não pode mais. O que resta é apenas o não lugar do sentido. Um não estar no mal estar daquilo não digerido. Fim, mas ainda não finito. Louco, desvairado nessa ingratidão do contido. Uiva pra dentro até se misturar com o sangue, com as células, com o oxigênio e ser purgado no ar para os próximos amantes.
.
.
"Ain't it just like the night to play tricks when you're tryin' to be so quiet ? (...) And these visions of Johanna that conquer my mind." 
.
.

.

Ain't it just like the night to play tricks when you're tryin' to be so quiet ?
We sit here stranded, though we're all doing our best to deny it
And Louise holds a handfull of rain, tempting you to defy it
Lights flicker from the opposite loft
In this room the heat pipes just cough
The country music station plays soft
But there's nothing really nothing to turn off
Just Louise and her lover so entwined
And these visions of Johanna that conquer my mind.
In the empty lot where the ladies play blindman's bluff with the key chain
And the all-night girls they whisper of escapades out on the D-train
We can hear the night watcman click his flashlight
Ask himself if it's him or them that's really insane
Louise she's all right, she's just near
She's delicate and seems like the mirror
But she just makes it all too concise and too clear
That Johanna's not here

The ghost of electricity howls in the bones of her face
Where these visions of Johanna have now taken my place.
Now, little boy lost, he takes himself so seriously
He brags of his misery, he likes to live dangerously
And when bringing her name up
He speaks of a farewell kiss to me
He's sure got a lotta gall to be so useless and all
Muttering small talk at the wall while I'm in the hall
Oh, how can I explain?
It's so hard to get on
And these visions of Johanna they kept me up past the dawn.

Inside the museums, Infinity goes up on trial
Voices echo this is what salvation must be like after a while
But Mona Lisa musta had the highway blues
You can tell by the way she smiles
See the primitive wallflower freeze
When the jelly-faced women all sneeze
Hear the one with the mustache say, "Jeeze I can't find my knees"
Oh, jewels and binoculars hang from the head of the mule
But these visions of Johanna, they make it all seem so cruel.
The peddler now speaks to the countess who's pretending to care for him
Saying, "Name me someone that's not a parasite and I'll go out and say a prayer for him"
But like Louise always says
"Ya can't look at much, can ya man "
As she, herself prepares for him
And Madonna, she still has not showed
We see this empty cage now corrode
Where her cape of the stage once had flowed
The fiddler, he now steps to the road
He writes everything's been returned which was owed
On the back of the fish truck that loads
While my conscience explodes
The harmonicas play the skeleton keys and the rain
And these visions of Johanna are now all that remain

.
.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Matemática

.
.
Uma amiga, às voltas com o projeto de doutorado, me disse que, no seu intuito de realizar uma pesquisa com base histórica estava descobrindo a importância de uma metodologia que apontasse para algum tipo de causalidade na scessão de eventos. Estilo process tracing ou algo do tipo que oferecesse algum instrumental para analisar a empiria/realidade. Daí me ocorreu que na chamada "vida real" às vezes é quase impossível achar alguma lógica, algum sentindo ou alguma linearidade - talvez só mesmo a posteriori e, não raro, muito à posteriori. Às vezes a vida é um livro de Kafka em que as categorias de causalidade, tempo e espaço se confundem ou simplesmente não estão presentes. De repente se é um inseto gigante. De repente se é encarcerado. Simples assim, "chupa essa manga". Fiquei pensando nas comédias românticas e como tudo nesse tipo de filme se encadeia logicamente gerando um "grande encontro", que se torna um "grande amor" e que vira um "grande final". Não sei se na vida, ou nas histórias contadas, a previsibilidade ou a causalidade são sempre aspectos a serem valorizados ou devem ser sempre buscadas. Não sei se faz sentido uma vida que faça sempre sentido - veja bem, não uma vida que não tenha sentido, esse sempre deve existir, mas do lado de fora como um farol ou bem dentro da pessoa.  Às vezes o conteúdo de uma história vale todo o surrealismo e o nonsense que ela traz. Ou não. Pois é, eu sempre fui fã do surreal e da falta de sentido. "Chupa essa manga", minha filha.
.
.
p.s.: sobre as comédias românticas, gosto quando elas são disfuncionais ou envolvem pessoas disfuncionais e/ou relacionamentos improváveis mas ao mesmo tempo ordinários. Gosto muito dessas duas aqui embaixo. A primeira, Frankie e Johnny, é antiguinha, começo dos anos 90, com roteiro adaptado de uma peça off-Broadway. Al Pacino, recém saído da prisão, se torna cozinheiro de um restaurante e se apaixona pela garçonete ex-vítima de abuso vivida por Michelle Pfeiffer. Duas pessoas sofridas que buscam-rejeitam alguma conexão. A cena final é linda e sutil. Um amanhecer e a música Clair de Lune de Debussy ao fundo  e that's it. A outra cena é o final do filme Melhor é Impossível com Jack Nicholson e Helen Hunt. Ele, um escritor problemático, se apaixona pela garçonete do seu restaurante preferido. Um relacionamento improvável que, no entanto, acontece. Adoro quando ele diz que ela é a melhor pessoa do mundo e o fato dele perceber isso o faz se sentir bem consigo mesmo. Ou quando, em outra cena, ele diz que começou a tomar pílulas para o seu transtorno obsessivo-compulsivo por que ela o faz querer ser um homem melhor.  É também uma cena de amanhecer. É, vai ver o segredo é juntar o início da luz do sol, pessoas comuns, uma tentativa de felicidade. Pequenas redenções. Can't miss.
.
.
.
.
.

Fácil


 
O simples não é fácil. Daqui.
.